sábado, 12 de março de 2011

Eu pertenço à geração à rasca

Eu pertenço à geração à rasca, mas não fui ao protesto. Não por não concordar. Concordo e muito. Não que ache que não é assim que se vai conseguir alguma coisa. Pode não ser, mas mostramos que estamos cá e que não estamos a gostar do que está a acontecer. Não fui porque, sei lá. Ando desmotivada? Acho que sim. Cansada. Provavelmente se tivesse ido, tinha encontrado tantos desmotivados que vinha para casa com novo fôlego, de sensação de missão cumprida. Se Calhar. Mas joguei pelo mais cómodo. A verdade é essa. Tenho três filhos e acima de tudo quero a estabilidade deles no hoje, agora, esta tarde que passou. Não posso pura e simplesmente despeja-los na escola de segunda a sexta-feira e ao sábado não estar com eles. A viver a 50 quilómetros de Lisboa e com o pai deles a trabalhar o dia inteiro era difícil conseguir margem de manobra para passar na Avenida da Liberdade. Mas se calhar devia ter ido e devia dos ter levado comigo, para mostrar ao país quanto à rasca nós estamos. Porque se eu estou à rasca, e estou, eles ainda mais. Passo recibos verdes há 9 anos. Passo recibos verdes há nove anos à mesma empresa. Passo recibos verdes há 9 anos à mesma empresa e no mesmo valor. Passo recibos verdes há 9 anos, à mesma empresa, no mesmo valor e com horas obrigatórias a cumprir, presença diária, password no computador, e-mail e até o carro da empresa eu conduzo. Não tenho seguro de trabalho, não tenho direito a subsídios nenhuns e todos os meses pago mais de 200 euros de segurança social. Se ficar doente não tenho direito a baixa. Se um filho meu ficar doente e eu tiver que faltar ao trabalho, um mês por exemplo, não recebo, mas tenho que pagar segurança social à mesma. Sou trabalhadora. Mas sou mesmo, não é falta de modéstia. Sou esforçada. Empenhada. Tirei uma licenciatura. Tirei uma pós graduação. Já trabalhei a entrar de madrugada, por sinal na Avenida da Liberdade, numa empresa de conteúdos económicos. Já trabalhei como correspondente de um jornal e não ganhei para a gasolina que gastei. Nunca me recusei a fazer uma reportagem. Sou jornalista e gosto. Mas gostava tanto de ser levada a sério. Não fui ao protesto, não fui, mas fica aqui a minha história de pessoa desta geração à rasca. É este o meu protesto.

4 comentários:

Joana disse...

Revi-me nisto tudo :-(

Joana disse...

Revi-me nisto tudo... Eu não fui porque eles esperavam a festa de anos do primo há mais de 2 meses. Não podia não os levar :-(

Ana Raquel Oliveira disse...

E a nossa prioridade é essa mesmo: de vê-los sorrir. Obrigada pelos comentários. É muito bom saber que existe alguém aí desse lado que nos lê.

Sofia Resmunga disse...

Estou contigo...O Estado não dá nem um cêntimo ao meu filho para ele estudar...Que futuro terão as crianças de amanhã?